[Resenha] Só escute


Quem nunca ficou com um livro parado na estante e, quando finalmente leu, ficou se perguntando por que demorou tanto tempo? Passei por isso recentemente, com o livro Só escute, da Sarah Dessen. Recebi a edição brasileira em julho, mas já tinha em inglês desde o ano passado e ainda não tinha lido. E, agora que terminei a leitura, só consigo pensar que já deveria ter feito isso há muito tempo.

Enrolei para ler Só escute, em grande parte, por medo de me decepcionar. Eu já tinha lido outro livro da autora, Uma canção de ninar (também publicado pela Editora Seguinte), e gostado muito, o que fez com que as minhas expectativas para as outras obras dela aumentassem consideravelmente, assim como o risco de me frustrar. Mas, finalmente, deixei o medo de lado e agora vou poder contar para vocês o que achei da leitura.

Autora: Sarah Dessen
Editora: Seguinte
Páginas: 352
Tradução: Alessandra Esteche
Onde comprar: Amazon
Exemplar recebido de cortesia da editora
Sinopse: “Ano passado, Annabel era a típica “garota que tem tudo” — inclusive era esse o papel que interpretava no comercial de uma loja de departamentos da cidade. Este ano, porém, ela é a garota que não tem nada: não tem mais a amizade de Sophie; não tem uma família feliz desde a descoberta do distúrbio alimentar de uma de suas irmãs; e não tem ninguém com quem passar a hora do almoço na escola. Até conhecer Owen Armstrong.”
                                   
Só escute conta a história de Anabelle, uma adolescente que, aparentemente, tem a vida perfeita. Além de popular na escola, ela segue a carreira de modelo desde criança, assim como suas duas irmãs mais velhas. Quem assistisse ao comercial gravado por ela, pensaria que Anabelle tinha a vida perfeita e estava ansiosa para começar um novo ano no colégio. Isso até poderia ter sido verdade meses antes, quando a propagando foi filmada, porém, um acontecimento logo antes do início das férias mudou tudo.
“Aquilo tinha sido antes daquela noite, antes de tudo o que acontecera com Sophie, antes do verão longo e solitário de segredos e silêncio. Eu estava perdida, mas a garota do comercial estava bem.”
Anabelle teve todo o verão para se preparar para a volta às aulas, mas não poderia estar mais desanimada para esse retorno e tudo que teria que enfrentar. Paralelamente, sua vida familiar também estava desmoronando. Para quem olhasse de fora, veria a imagem de uma família feliz e estável. Porém, a descoberta de que uma das irmãs de Anabelle tem um distúrbio alimentar muda completamente a dinâmica daquela família e expões os problemas que todos ali sempre tentaram evitar.
Sem querer trazer mais problemas aos pais e ficando totalmente sozinha na escola, Anabelle acaba se aproximando de Owen Armstrong, um garoto misterioso que costumava ser evitado na escola. Obcecado por música, Owen tem tentado controlar seu gênio e evitar as brigas. Com o lema de sempre dizer a verdade, por mais dolorosa que ela pudesse ser, ele acaba incentivando Anabelle a olhar mais para si mesma e encarar as verdades que ela sempre tentou esconder, incluindo o segredo que mudou a vida dela.


A princípio, Só escute pode parecer um YA comum, com uma trama simples e, até mesmo, clichê. No entanto, me surpreendi ao encontrar temas muito importantes sendo abordados com sensibilidade e seriedade. Todos os personagens possuem seus conflitos e, por meio deles, várias questões importantes foram discutidas. Então, enquanto eu esperava mais um livro em que vemos o romance de uma menina popular que teve seu status alterado e passa a reparar no garoto esquisito, ele foi muito mais que isso. É um livro que fala sobre família, amizade, amor próprio, machismo, transtornos alimentares e, principalmente, a importância de aprender a encarar seus medos e a usar a própria voz.
“Aquela era a questão: um dia, a diferença entre a luz e a escuridão fora simples. Uma era boa; a outra, ruim. Mas de repente as coisas não eram mais tão claras. A escuridão ainda era um mistério, algo escondido, que causava medo, mas eu passara a temer a luz também. Era onde tudo se revelava, ou parecia se revelar.”
E o que achei mais interessante é que, apesar da autora abordar muitos assuntos nesse livro, todos eles foram bem trabalhados ao longo da trama. São questões que foram surgindo de maneira natural na história, acompanhando os arcos dos personagens. Em nenhum momento, senti que algum tema tenha sido jogado pela autora, sem o devido desenvolvimento, ou que tenha sido abordado de uma maneira forçada ou exagerada.
Nesse sentido, outro ponto que gostei muito foi a construção dos personagens, começando pela protagonista. Confesso que Anabelle não é uma personagem fácil de se gostar, porque ela tem atitudes erradas em diversos momentos e me irritei com a dificuldade dela em falar a verdade e expor seus sentimentos. No entanto, as situações vividas por ela são muito críveis e tornam o seu comportamento muito mais compreensível. Anabelle é uma personagem que se fecha e se cala quando deveria falar, mas fica evidente que isso era um mecanismo de defesa, uma proteção contra o mundo. Além disso, a autora soube mostrar o quanto esse comportamento fazia com que a personagem acabasse sofrendo e se sentindo sufocada. Assim, por mais que eu ficasse brava com ela em alguns momentos, conseguia entender seus conflitos.
“... mas eu absorvi a mensagem: ser gentil era o ideal, a única maneira de não levantarem a voz ou dirigirem um silêncio assustador a você. Ao ser gentil, não precisava me preocupar com gritos. Mas aquilo não era tão fácil quanto parecia, porque o mundo poderia ser bem malvado.”
Os demais personagens também são bem construídos e tiveram seus dilemas bem trabalhados pela autora. As irmãs de Anabelle, Kirsten e Whitney, foram as que mais me surpreenderam, porque a imagem que criei delas no início foi se transformando ao longo da trama, à medida que os conflitos que elas carregavam se tornavam mais claros. Já o Owen, apesar de ser um mocinho que encanta e faz com que a gente se apaixone por ele, também tem suas fraquezas e seus conflitos. Assim, por mais perfeito que pareça ser, ele também tem suas falhas e isso o torna mais humano, sem deixar de ser cativante.



“Parecia estranho que Owen Armstrong fosse mais seguro do que as duas únicas grandes amigas que já tive. Eu estava começando a perceber que o desconhecido nem sempre era o que mais deveríamos temer. As pessoas que nos conhecem melhor podem ser mais perigosas, porque suas palavras e seus pensamentos podem não apenas ser assustadores, mas verdadeiros.”
Com relação ao romance, eu adorei a forma natural como ele foi construído. A aproximação entre eles acontece aos poucos e é fácil compreender o que levou Anabelle a se sentir bem com a companhia dele. Além disso, gostei muito de ver o quanto Owen ajuda Anabelle e a desafia a enfrentar seus conflitos. Juntos, eles despertam um o melhor do outro, o que torna seu relacionamento ainda mais especial.
No entanto, o que mais me cativou nesse livro, foi o drama familiar. Dentro desse núcleo, a autora trouxe assuntos muito importantes como a depressão e os transtornos alimentares. Além disso, gostei muito de ver que, apesar de todos os problemas que estavam escondidos sob a fachada de família perfeita, havia muito amor naquela família. Em especial, adorei a evolução da relação entre as três irmãs e o quanto elas amadurecem.
“Mas eu também tinha mudado, ainda que fosse a única a perceber. Estava diferente. Tão diferente quanto minha família era daquilo que parecíamos na noite em que tudo começara – uma família feliz, com nós cinco compartilhando uma refeição em nossa casa de vidro – para qualquer pessoa que passasse de carro pela rua e olhasse para dentro.”
Com relação à escrita de Sarah Dessen, mais uma vez, ela me conquistou. Apesar de abordar assuntos sérios, a autora desenvolve a história com muita sensibilidade, deixando a leitura leve e envolvente.  Além disso, conduziu a trama de uma maneira bem dinâmica, mas sem apressar demais os acontecimentos ou deixar pontas soltas. Tudo acontece no momento certo e de forma natural, prendendo a atenção do leitor e tornando a leitura fluida.
Só escute foi meu segundo contato com a escrita da Sarah Dessen e, mais do que não me decepcionar, ele conseguiu superar minhas expectativas. É uma leitura rápida e envolvente, mas que trouxe assuntos importantes e muitas reflexões. Assim, recomendo para aqueles que procuram um romance Young Adult leve e apaixonante, mas também para aqueles que buscam um livro com temas sérios e necessários.

Apaixonada por literatura desde pequena, nunca consegui ficar muito tempo sem um livro na mão. Assim, o Dicas de Malu é o espaço onde compartilho um pouco desse meu amor pelo mundo literário.




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