Não é segredo para ninguém que me
acompanha aqui no blog que a Collen Hoover é uma das minhas autoras favoritas,
daquelas que eu leria até a lista de supermercado, caso ela resolvesse
publicar. No entanto, quando soube do lançamento de As mil partes do meu
coração, fiquei um pouco receosa. Não que eu duvidasse da capacidade de escrita
da Colleen, mas é que os lançamentos mais recentes dela foram romances New
Adult, com personagens mais maduros e assuntos pesados. Então, sendo esse
lançamento um Young Adult, eu tive medo de não me envolver com a história ou
não sentir a mesma emoção que tive com outros livros da autora.
No entanto, meu medo acabou se mostrando
bastante infundado. As mil partes do meu coração é tão envolvente quanto todos
os outros livros da Colleen que eu já li e acabou me surpreendendo bastante.
Com um enredo e personagens pouco convencionais, esse é um dos livros mais
diferentes que eu já li da autora e me fez a certeza de que eu não posso
duvidar nunca da capacidade dela de criar histórias que mexem com o leitor.
Autora: Colleen Hoover
Editora: Galera Record
Tradução: Ryta Vinagre
Páginas: 336
Exemplar recebido de parceria com a
editora
Sinopse: “Autora best-seller do New York
Times aborda relacionamentos e transtornos mentais em uma narrativa que discute
os limites do que é normal. Para Merit Voss, a cerca branca ao redor da sua
casa é a única coisa normal quando o assunto é sua família, peculiar e cheia de
segredos. Eles moram em uma antiga igreja, batizada de Dólar Voss. A mãe,
curada de um câncer, mora no porão, e o pai e o restante da família, no andar
de cima. Isso inclui sua nova esposa, a ex-enfermeira da ex-mulher, o pequeno
Moby, fruto desse relacionamento, o irmão mais velho, Utah, e a gêmea idêntica
de Merit, Honor. E, como se a casa não tivesse cheia o bastante, ainda chegam o
excêntrico Luck e o misterioso Sagan. Mas Merit sente que é o oposto de todos
ali. Além de colecionar troféus que não ganhou, Merit também coleciona segredos
que sua família insiste em manter. E começa a acreditar que não seria uma
grande perda se um dia ela desaparecesse. Mas, antes disso, a garota decide que
é hora de revelar todas as verdades e obrigá-los a enfim encarar o que
aconteceu. Mas seu plano não sai como o esperado e ela deve decidir se pode dar
uma segunda chance não apenas à sua família, mas também a si mesma. As mil
partes do meu coração mostra que nunca é tarde para perdoar e que não existe
família perfeita, por mais branca que seja a cerca.”
Em As mil partes do meu coração,
conhecemos a adolescente Merit Voss. Ela tem uma família nada convencional, que
atrai os comentários dos habitantes na pequena cidade em que moram. Para
começar, eles moram em uma igreja que foi comprada pelo pai, após ele se
desentender com o pastor. Mas isso nem é o mais estranho. Na casa, vivem Merit,
sua irmã gêmea Honor, seu irmão mais velho Utah, seu meio-irmão caçula Moby,
seu pai, sua madrasta Victoria e, no porão, sua mãe Victoria. Sim, não apenas a
mãe e a madrasta de Merit têm o mesmo nome, como ainda moram na mesma casa.
E, se essa simples descrição da família já
é estranha, na prática, é uma convivência ainda mais disfuncional do que
parece. Claro que isso acaba afetando a todos de alguma forma e, no caso de
Merit, faz com que ela sinta como se ninguém na família notasse sua existência.
Para compensar suas frustrações, ela começa a adquirir troféus toda vez que
algo dá errado. E é quando está comprando um desses troféus, depois de ter
decidido abandonar a escola, que Merit conhece o misterioso e charmoso Sagan.
Pela forma como ele a olha, Merit se sente especial pela primeira vez, até
descobrir que ele a confundiu com sua irmã gêmea.
“Ninguém
seria capaz de determinar, vendo de fora, que nossa família de sete inclui um
ateu, um destruidor de lares, uma ex-mulher que sofre de uma grave agorafobia e
uma adolescente cuja estranha obsessão beira a necrofilia. Ninguém poderia
supor nada disso nem mesmo de dentro
de nossa casa. Sabemos guardar segredos nessa família.”
Mas quando ela pensava que nada poderia
ser pior, dois novos moradores chegam para mudar ainda mais a vida da família
Voss. E Merit, que guardava os segredos de todos da família, começa a se sentir
cada vez mais sobrecarregada por eles. Com a crescente sensação de isolamento e
o peso de tudo que guardava para si, ela começa a se perguntar se alguém dentro
daquela casa realmente notaria sua ausência e o que aconteceria se, antes de
partir, ela decidisse contar tudo que sempre escondeu.

Logo na sinopse, já dá para perceber que As mil partes do meu coração é um livro
bem diferente do que estamos acostumados a ver nas histórias da Colleen Hoover.
Para começar, é evidente que esses não são personagens comuns. Todos eles têm
algum comportamento que reforça a sensação de que a família Voss é bastante
disfuncional. Além da protagonista Merit, com sua compulsão por troféus que não
conquistou, sua irmã gêmea parece ter uma obsessão em se envolver com garotos
que estão doentes em fase terminal, seu irmão mais velho é excessivamente
preocupado com controle e organização, sua madrasta é neurótica com relação à
alimentação do filho, e sua mãe sofre de agorafobia (transtorno de ansiedade
associado ao medo de ambientes desconhecidos ou onde não se sinta confortável),
razão pela qual não sai do porão da casa do ex-marido.
“Essa
família é o horror que todos dessa cidade acreditam. Talvez ainda pior. Estou
enojada. Farta dos segredos e das mentiras. Cansada de ser a pessoa que guarda
todos os segredos deles! (...) Talvez, se eu soltar todos os segredos, eles não
me deem mais a sensação de que estou me afogando.”
Deste modo, não é difícil entender o
quanto Mérit se sente sobrecarregada e se conectar com essa personagem. Além disso,
o fato do livro ser narrado em primeira pessoa pela protagonista contribui
muito para que o leitor a compreenda e perceba o quanto essa menina precisa de
ajuda. Apesar de ela não falar com todas as letras, todos os sinais de
depressão estão lá e vai se tornando cada vez mais angustiante ver que a
família dela não percebe.
Aliás, me surpreendi muito como a Colleen
conseguiu abordar com delicadeza e seriedade um assunto tão importante. O fato
de termos acesso aos pensamentos e sentimentos da protagonista faz com que o
leitor tenha uma noção de como uma pessoa com depressão se sente e perceba a
gravidade desta doença. Assim, a autora deixa claro o quanto questões relacionadas
à saúde mental precisam ser levadas a sério, e a necessidade de estarmos sempre
atento aos sinais de que algo não está bem.
“O
único sentimento de que tenho certeza é que estou completa e inteiramente
deprimida. Eu já devia estar acostumada com ele, mas não estou. Acho que é uma
coisa com que ninguém consegue se acostumar.”
O fato de termos um livro narrado todo
pela perspectiva da Merit foi fundamental também para que a Colleen conseguisse
desenvolver outros assuntos. Como só temos a visão dela o tempo todo, a imagem
que formamos dos outros personagens e dos segredos da família Voss são
totalmente influenciados pela visão dela. Porém, ao longo do livro, vamos
percebendo que toda história tem dois lados e foi muito interessante ir
descobrindo que os demais personagens também tinham suas próprias questões.
“–
Nem todo erro merece uma consequência. Às vezes, a única coisa que ele merece é
o perdão.”
Nesse sentido, um dos aspectos que mais
gostei é que fui surpreendida em vários momentos por revelações que mudavam
tudo que eu tinha sido levada a acreditar até ali, fazendo com que eu
percebesse camadas nos personagens que antes eu não tinha visto. E isso foi
algo muito positivo não somente por deixar a trama mais interessante, mas
também por conferir maior complexidade aos demais personagens, além da
protagonista.
“Não
são os problemas com que as pessoas ficam obcecadas por tanto tempo. É que
ninguém tem a coragem de dar o primeiro passo para falar desses problemas.”
Com isso, mesmo que a família Voss tivesse
tantos membros, todos eles tiveram espaço na trama para que seus conflitos
fossem desenvolvidos. Não vou dizer que gostei de todos igualmente, mas gostei
de poder conhecê-los e entender suas histórias. Mas claro que alguns se
destacaram mais e eu não posso deixar de mencionar aqui: Sagan e Luck, os dois
novos moradores de Dolar Voss, a casa da família, que foram os catalizadores
das mudanças que ocorreram ali. Eles foram meus favoritos não só pela
relevância que tiveram na trama, como por terem sido os primeiros a realmente
enxergarem a Mérit e perceberem que ela precisava de ajuda.
Mas vocês devem estar se perguntando, e o
romance? Afinal, estamos falando de um livro da Colleen Hoover. É claro que ele
está presente no livro e é muito fofo. Porém, já aviso que é uma questão que
fica em segundo plano. O centro da história é a Mérit e como os segredos da
família a afetaram, e o romance é mais uma peça desse caos em que os
sentimentos dela se encontram. Mas não se preocupem que, nos momentos em que o
romance ganha destaque, é muito bonito de se acompanhar e eu torci pelo casal o
tempo todo.
“Mas
agora, sem saber nada a respeito dele além da intensidade da sua expressão,
permito-me imaginar que ele é perfeito. Finjo que ele é inteligente, respeitoso
e artístico. Porque ele seria todas essas coisas se fosse perfeito.”
Com relação à escrita da Colleen Hoover,
acho que eu não preciso nem dizer nada né? Ela tem um dom de prender a atenção
do leitor de um jeito que você não sente vontade de largar o livro em momento
algum. Eu realmente me conectei com os personagens e me envolvi com seus
dramas, e não queria parar de ler até descobrir o que aconteceria. Além disso,
achei que ela foi extremamente habilidosa em trabalhar assuntos difíceis e
dolorosos de uma maneira delicada, sem deixar que a leitura se tornasse pesada.
Pelo contrário, mesmo que aborde assuntos tão sérios, eu achei esse um dos
livros mais leves que já li da autora.
Não posso deixar de mencionar também a
edição que está linda. Eu adorei a capa, que é simples e combina com o livro.
Além disso, as páginas amareladas e o tamanho da fonte deixam a leitura muito
confortável. E, para completar, no final do livro, tem algumas páginas com
ilustrações bem legais que são mencionadas na história.
De um modo geral, As mil partes do meu
coração foi um livro que me surpreendeu por ter um enredo que foge do padrão
que me acostumei a ver nas obras da Colleen Hoover, mas com a mesma habilidade
de me emocionar que todos os outros livros dela tiveram. É uma história que vai
muito além do romance, trazendo dramas familiares e pessoais muito atuais e
importantes. É um livro sobre superação, perdão e recomeços, que encanta por
ser uma leitura leve, mas capaz de tocar o leitor como só os livros da Colleen
conseguem.