[Resenha] As mil partes do meu coração


Não é segredo para ninguém que me acompanha aqui no blog que a Collen Hoover é uma das minhas autoras favoritas, daquelas que eu leria até a lista de supermercado, caso ela resolvesse publicar. No entanto, quando soube do lançamento de As mil partes do meu coração, fiquei um pouco receosa. Não que eu duvidasse da capacidade de escrita da Colleen, mas é que os lançamentos mais recentes dela foram romances New Adult, com personagens mais maduros e assuntos pesados. Então, sendo esse lançamento um Young Adult, eu tive medo de não me envolver com a história ou não sentir a mesma emoção que tive com outros livros da autora.
No entanto, meu medo acabou se mostrando bastante infundado. As mil partes do meu coração é tão envolvente quanto todos os outros livros da Colleen que eu já li e acabou me surpreendendo bastante. Com um enredo e personagens pouco convencionais, esse é um dos livros mais diferentes que eu já li da autora e me fez a certeza de que eu não posso duvidar nunca da capacidade dela de criar histórias que mexem com o leitor.


Autora: Colleen Hoover
Editora: Galera Record
Tradução: Ryta Vinagre
Páginas: 336
Onde comprar: Amazon
Exemplar recebido de parceria com a editora
Sinopse: “Autora best-seller do New York Times aborda relacionamentos e transtornos mentais em uma narrativa que discute os limites do que é normal. Para Merit Voss, a cerca branca ao redor da sua casa é a única coisa normal quando o assunto é sua família, peculiar e cheia de segredos. Eles moram em uma antiga igreja, batizada de Dólar Voss. A mãe, curada de um câncer, mora no porão, e o pai e o restante da família, no andar de cima. Isso inclui sua nova esposa, a ex-enfermeira da ex-mulher, o pequeno Moby, fruto desse relacionamento, o irmão mais velho, Utah, e a gêmea idêntica de Merit, Honor. E, como se a casa não tivesse cheia o bastante, ainda chegam o excêntrico Luck e o misterioso Sagan. Mas Merit sente que é o oposto de todos ali. Além de colecionar troféus que não ganhou, Merit também coleciona segredos que sua família insiste em manter. E começa a acreditar que não seria uma grande perda se um dia ela desaparecesse. Mas, antes disso, a garota decide que é hora de revelar todas as verdades e obrigá-los a enfim encarar o que aconteceu. Mas seu plano não sai como o esperado e ela deve decidir se pode dar uma segunda chance não apenas à sua família, mas também a si mesma. As mil partes do meu coração mostra que nunca é tarde para perdoar e que não existe família perfeita, por mais branca que seja a cerca.”

Em As mil partes do meu coração, conhecemos a adolescente Merit Voss. Ela tem uma família nada convencional, que atrai os comentários dos habitantes na pequena cidade em que moram. Para começar, eles moram em uma igreja que foi comprada pelo pai, após ele se desentender com o pastor. Mas isso nem é o mais estranho. Na casa, vivem Merit, sua irmã gêmea Honor, seu irmão mais velho Utah, seu meio-irmão caçula Moby, seu pai, sua madrasta Victoria e, no porão, sua mãe Victoria. Sim, não apenas a mãe e a madrasta de Merit têm o mesmo nome, como ainda moram na mesma casa.
E, se essa simples descrição da família já é estranha, na prática, é uma convivência ainda mais disfuncional do que parece. Claro que isso acaba afetando a todos de alguma forma e, no caso de Merit, faz com que ela sinta como se ninguém na família notasse sua existência. Para compensar suas frustrações, ela começa a adquirir troféus toda vez que algo dá errado. E é quando está comprando um desses troféus, depois de ter decidido abandonar a escola, que Merit conhece o misterioso e charmoso Sagan. Pela forma como ele a olha, Merit se sente especial pela primeira vez, até descobrir que ele a confundiu com sua irmã gêmea.
“Ninguém seria capaz de determinar, vendo de fora, que nossa família de sete inclui um ateu, um destruidor de lares, uma ex-mulher que sofre de uma grave agorafobia e uma adolescente cuja estranha obsessão beira a necrofilia. Ninguém poderia supor nada disso nem mesmo de dentro de nossa casa. Sabemos guardar segredos nessa família.”

Mas quando ela pensava que nada poderia ser pior, dois novos moradores chegam para mudar ainda mais a vida da família Voss. E Merit, que guardava os segredos de todos da família, começa a se sentir cada vez mais sobrecarregada por eles. Com a crescente sensação de isolamento e o peso de tudo que guardava para si, ela começa a se perguntar se alguém dentro daquela casa realmente notaria sua ausência e o que aconteceria se, antes de partir, ela decidisse contar tudo que sempre escondeu.


Logo na sinopse, já dá para perceber que As mil partes do meu coração é um livro bem diferente do que estamos acostumados a ver nas histórias da Colleen Hoover. Para começar, é evidente que esses não são personagens comuns. Todos eles têm algum comportamento que reforça a sensação de que a família Voss é bastante disfuncional. Além da protagonista Merit, com sua compulsão por troféus que não conquistou, sua irmã gêmea parece ter uma obsessão em se envolver com garotos que estão doentes em fase terminal, seu irmão mais velho é excessivamente preocupado com controle e organização, sua madrasta é neurótica com relação à alimentação do filho, e sua mãe sofre de agorafobia (transtorno de ansiedade associado ao medo de ambientes desconhecidos ou onde não se sinta confortável), razão pela qual não sai do porão da casa do ex-marido.
“Essa família é o horror que todos dessa cidade acreditam. Talvez ainda pior. Estou enojada. Farta dos segredos e das mentiras. Cansada de ser a pessoa que guarda todos os segredos deles! (...) Talvez, se eu soltar todos os segredos, eles não me deem mais a sensação de que estou me afogando.”
Deste modo, não é difícil entender o quanto Mérit se sente sobrecarregada e se conectar com essa personagem. Além disso, o fato do livro ser narrado em primeira pessoa pela protagonista contribui muito para que o leitor a compreenda e perceba o quanto essa menina precisa de ajuda. Apesar de ela não falar com todas as letras, todos os sinais de depressão estão lá e vai se tornando cada vez mais angustiante ver que a família dela não percebe.
Aliás, me surpreendi muito como a Colleen conseguiu abordar com delicadeza e seriedade um assunto tão importante. O fato de termos acesso aos pensamentos e sentimentos da protagonista faz com que o leitor tenha uma noção de como uma pessoa com depressão se sente e perceba a gravidade desta doença. Assim, a autora deixa claro o quanto questões relacionadas à saúde mental precisam ser levadas a sério, e a necessidade de estarmos sempre atento aos sinais de que algo não está bem.
“O único sentimento de que tenho certeza é que estou completa e inteiramente deprimida. Eu já devia estar acostumada com ele, mas não estou. Acho que é uma coisa com que ninguém consegue se acostumar.”
O fato de termos um livro narrado todo pela perspectiva da Merit foi fundamental também para que a Colleen conseguisse desenvolver outros assuntos. Como só temos a visão dela o tempo todo, a imagem que formamos dos outros personagens e dos segredos da família Voss são totalmente influenciados pela visão dela. Porém, ao longo do livro, vamos percebendo que toda história tem dois lados e foi muito interessante ir descobrindo que os demais personagens também tinham suas próprias questões.
“– Nem todo erro merece uma consequência. Às vezes, a única coisa que ele merece é o perdão.”



Nesse sentido, um dos aspectos que mais gostei é que fui surpreendida em vários momentos por revelações que mudavam tudo que eu tinha sido levada a acreditar até ali, fazendo com que eu percebesse camadas nos personagens que antes eu não tinha visto. E isso foi algo muito positivo não somente por deixar a trama mais interessante, mas também por conferir maior complexidade aos demais personagens, além da protagonista.
“Não são os problemas com que as pessoas ficam obcecadas por tanto tempo. É que ninguém tem a coragem de dar o primeiro passo para falar desses problemas.”
Com isso, mesmo que a família Voss tivesse tantos membros, todos eles tiveram espaço na trama para que seus conflitos fossem desenvolvidos. Não vou dizer que gostei de todos igualmente, mas gostei de poder conhecê-los e entender suas histórias. Mas claro que alguns se destacaram mais e eu não posso deixar de mencionar aqui: Sagan e Luck, os dois novos moradores de Dolar Voss, a casa da família, que foram os catalizadores das mudanças que ocorreram ali. Eles foram meus favoritos não só pela relevância que tiveram na trama, como por terem sido os primeiros a realmente enxergarem a Mérit e perceberem que ela precisava de ajuda.
Mas vocês devem estar se perguntando, e o romance? Afinal, estamos falando de um livro da Colleen Hoover. É claro que ele está presente no livro e é muito fofo. Porém, já aviso que é uma questão que fica em segundo plano. O centro da história é a Mérit e como os segredos da família a afetaram, e o romance é mais uma peça desse caos em que os sentimentos dela se encontram. Mas não se preocupem que, nos momentos em que o romance ganha destaque, é muito bonito de se acompanhar e eu torci pelo casal o tempo todo.
“Mas agora, sem saber nada a respeito dele além da intensidade da sua expressão, permito-me imaginar que ele é perfeito. Finjo que ele é inteligente, respeitoso e artístico. Porque ele seria todas essas coisas se fosse perfeito.”
Com relação à escrita da Colleen Hoover, acho que eu não preciso nem dizer nada né? Ela tem um dom de prender a atenção do leitor de um jeito que você não sente vontade de largar o livro em momento algum. Eu realmente me conectei com os personagens e me envolvi com seus dramas, e não queria parar de ler até descobrir o que aconteceria. Além disso, achei que ela foi extremamente habilidosa em trabalhar assuntos difíceis e dolorosos de uma maneira delicada, sem deixar que a leitura se tornasse pesada. Pelo contrário, mesmo que aborde assuntos tão sérios, eu achei esse um dos livros mais leves que já li da autora.
Não posso deixar de mencionar também a edição que está linda. Eu adorei a capa, que é simples e combina com o livro. Além disso, as páginas amareladas e o tamanho da fonte deixam a leitura muito confortável. E, para completar, no final do livro, tem algumas páginas com ilustrações bem legais que são mencionadas na história.
De um modo geral, As mil partes do meu coração foi um livro que me surpreendeu por ter um enredo que foge do padrão que me acostumei a ver nas obras da Colleen Hoover, mas com a mesma habilidade de me emocionar que todos os outros livros dela tiveram. É uma história que vai muito além do romance, trazendo dramas familiares e pessoais muito atuais e importantes. É um livro sobre superação, perdão e recomeços, que encanta por ser uma leitura leve, mas capaz de tocar o leitor como só os livros da Colleen conseguem.

[Resenha] Em pedaços


Olá, leitores! Vocês, como eu, também amam um bom romance? Um dos meus favoritos do ano passado foi o livro Mais que amigos, da autora Lauren Layne. E, no finalzinho de dezembro, eu resolvi ler outro livro da autora também publicado pela Editora Paralela em 2018: Em pedaços, o primeiro volume da série Recomeços.
Depois de ter sido conquistada pela leveza de Mais que amigos, me surpreendi ao encontrar um romance com mais drama e personagens cheios de cicatrizes emocionais. No entanto, isso não foi um problema. Mesmo tendo um tom bem diferente do que eu esperava, Em pedaços mantém muito do que admirei na escrita da Lauren Layne no outro livro e acabou me conquistando também.


Autora: Lauren Layne
Editora: Paralela
Tradução: Lígia Azevedo
Páginas: 176
Classificação: + 18 anos
Onde comprar: Amazon
Exemplar recebido de cortesia da editora
Sinopse: Nessa recontagem moderna de A Bela e a Fera, Lauren Layne nos traz uma história irresistível de perdão, cura e, acima de tudo, amor.Aos 22 anos, Olivia Middleton tem Nova York aos seus pés. Por fora, ela é a garota perfeita ― linda, inteligente e caridosa. Mas por dentro ela guarda um segredo terrível: um erro que a afastou das duas únicas pessoas que realmente importavam na sua vida. Determinada a esquecer o passado, ela deixa Manhattan e vai trabalhar como cuidadora de um soldado recém-chegado da guerra. Mas o que ela não esperava era que seu paciente fosse um jovem enigmático de 24 anos tão amargurado quanto cativante.Paul Landon está furioso ― com o mundo, com a vida, com o seu pai e, acima de tudo, consigo mesmo. Depois de sofrer na pele os horrores da guerra do Afeganistão, a última coisa que ele quer é a companhia de uma princesa nova-iorquina linda, mimada e irritante. A presença de Olivia parece tóxica para Paul, mas ele não consegue afastá-la, mesmo tentando muito.Por mais que lutem contra uma atração intoxicante, Paul e Olivia não conseguem se manter distantes. Agora, precisam decidir: eles vão ajudar um ao outro a curar as feridas do passado ou vão se manter, para sempre, em pedaços?

Primeiro volume da trilogia Recomeços, Em Pedaços apresenta ao leitor a personagem Olivia Middleton, uma jovem de 22 anos que parece ter uma vida perfeita: bonita, rica, estudante da NYU e com uma vida social agitada, frequentando os lugares mais caros de Manhattan. No entanto, ela cometeu um erro grave e acabou magoando as duas pessoas que mais amava. Querendo fugir desse segredo, Olivia decide largar tudo e se tornar cuidadora de um ex-soldado que foi ferido durante a Guerra do Afeganistão.
No entanto, diferente do que ela imaginava, Paul Landon era um homem jovem e muito atraente. Ele passou por muitos horrores na guerra, que o deixaram com marcas físicas e emocionais. Com isso, Paul vive amargurado e faz o que pode para afastar as pessoas. Todas as cuidadoras que seu pai contratou, acabaram desistindo. Porém, com Olivia é diferente e Paul percebe que não será fácil se livrar dela. E, quanto mais convivem, menos certeza ele tem de que não a quer ali.
“Eu me tornei um especialista em afastar as pessoas, agindo da forma mais desagradável possível até levá-las ao limite. Mas com ela é diferente. (...) Suspeito que, de todas as pessoas, ela talvez saque que minha hostilidade não é descabida. Que meu interior está completamente podre.”
            


Como eu disse no começo, o que mais me surpreendeu no livro Em pedaços foi o fato da trama ter um tom mais dramático do que eu esperava. No entanto, apesar de diferente do que imaginei a princípio, acabou sendo um aspecto que me agradou porque veio acompanhado de uma complexidade maior dos personagens. Ambos possuem conflitos a serem trabalhados, fazendo com que a história não se limite ao romance e mostre também as jornadas individuais deles.
“É que, lá no fundo, sei que a razão pela qual vim pra cá foi a noção inocente de que ajudar Paul acabaria me ajudando. Que, de alguma forma, eu poderia consertar o que estivesse quebrado e podre dentro de mim.”
Confesso que o grande segredo de Olívia, que foi o motivo dela deixar tudo para cuidar de um estranho, foi um tanto exagerado. Ela cometeu um erro grave, mas não o suficiente para motivar uma mudança tão radical em sua vida. Porém, deixando a motivação dela de lado, a transformação que ela sofre foi algo bem legal de acompanhar. Ao cuidar de Paul, Olívia acaba sendo levada a olhar para além de seu próprio umbigo e isso fez com que ela amadurecesse.
No entanto, meu personagem favorito foi o Paul. No início, é difícil gostar dele, devido ao seu comportamento grosseiro. Porém, não é necessário muito tempo para perceber que se trata apenas de uma forma de afastar as pessoas e evitar as cicatrizes físicas e emocionais dos horrores que viveu. Assim, Paul é um personagem mais complexo e com traumas que são muito mais compreensíveis que os de Olivia. E, mesmo não concordando com grande parte de suas ações, eu conseguia entendê-lo e acabei me apegando bastante a esse personagem.

“Amo a pessoa que Paul é. A escuridão e as sombras. Seu sorriso e a bondade que faz tanto esforço para esconder. O jovem quarterback por baixo do veterano de guerra. Amo mais o lado direito de seu rosto, cheio de cicatrizes, que a perfeição do esquerdo.”



Outro aspecto que gostei muito foi o fato de que o romance não é imediato. Logo que se conhecem, Paul e Olívia se sentem atraídos. Porém, os sentimentos vão surgindo aos poucos, com a convivência. No início, eles brigam o tempo todo, mas são essas discussões que levam os dois a encararem seus traumas e começarem a se abrir. Paul e Olívia conseguem realmente enxergar um ao outro, com suas qualidades e defeitos, e isso traz uma cumplicidade entre eles que é muito bonita.
“Deveria ser um alívio, mas não consigo afastar um pressentimento sombrio. Não importa para onde olhe, as paredes estão caindo. E essa garota continua despertando em mim a coisa mais perigosa do mundo. Esperança.”
Com relação à trama, achei que a Lauren Blakely soube dosar bem o drama, o romance e até um toque de humor. A relação de Olivia e Paul é bem construída e cativante, no melhor estilo A Bela e a Fera. No entanto, isso não é o centro do livro, e temos espaço para ver o desenvolvimento pessoal dos dois. E, por mais que eu tenha achado os conflitos da Olivia um pouco exagerados, a autora não deixou que isso se tornasse algo pesado ou cansativo dentro da história. Além disso, os diálogos afiados entre os dois protagonistas contribuem não apenas para deixar a leitura mais fluida, mas também para trazer um pouco de humor para a trama.
É importante destacar que o livro tem algumas cenas de sexo e, por isso, não é uma leitura indicada para menores. Porém, gostei muito do fato de que a autora conseguiu inseri-las de maneira natural na trama, sem deixar que se tornassem apelativas. Assim, para quem tem mais de 18 anos e não gosta de livros com uma pegada muito hot, não precisa se preocupar, porque as cenas mais quentes não são excessivas.
Assim, Em pedaços é um romance new adult com mais doses de drama, mas que se mostrou uma leitura tão fluida quanto eu esperava. A escrita de Lauren Layne continua tão envolvente quanto no livro Mais que amigos e ela mantém sua habilidade para construir o romance de maneira natural e cativante, fazendo com que eu me encantasse com mais um livro dela. Agora, não vejo a hora de ler o prequel que foi publicado no ano passado, Como num filme, e o terceiro livro que ainda não saiu no Brasil.

[Resenha] Os noivos do inverno


Tem coisa melhor que começar o ano adicionando um livro aos favoritos? Dá uma sensação de iniciar com o pé direito. Felizmente, foi o que aconteceu comigo. O primeiro livro que terminei em 2019 foi Os noivos do inverno, da autora francesa Christelle Dabos, e eu não poderia ter começado o ano com uma leitura melhor.
Eu admito que a primeira coisa que despertou minha curiosidade foi a capa, que achei lindíssima, mas a sinopse e os comentários positivos me deixaram muito animada a ler. No entanto, por mais que eu tivesse boas expectativas, Os noivos do inverno conseguiu ser uma leitura surpreendente por ter se mostrado diferente de qualquer coisa que já li. E é claro que uma leitura tão especial precisava ser a primeira resenha aqui do blog em 2019 né?

Autora: Christelle Dabos
Editora: Morro Branco
Tradução: Sofia Soter
Páginas: 416
Onde comprar: Amazon
Sinopse:Vencedor do Grand Prix de l'Imaginaire. Honesta e cabeça-dura, Ophélie não se importa com as aparências. Mas, por baixo de seus óculos de aros largos e cachecol desgastado, a garota esconde poderes únicos: ela pode ler o passado dos objetos e atravessar espelhos. A vida tranquila que leva em Anima se transforma quando Ophélie é prometida em casamento à Thorn, herdeiro de um distante e poderoso clã. Agora, ela terá que deixar para trás tudo o que conhece e seguir seu noivo até Cidade Celeste, a capital flutuante de uma gelada arca conhecida como Polo. Ali, o perigo espreita em cada esquina, e não se pode confiar em ninguém. Sem se dar conta, Ophélie torna-se um peão em um jogo político mortal, capaz de mudar tudo para sempre”.

Em Os Noivos do Inverno, Ophélie leva uma vida tranquila e confortável trabalhando no museu de Anima. Ao contrário das outras mulheres de sua família, ela não tem a menor intenção de se casar e não se preocupa com sua aparência. Usando óculos de aro e um velho cachecol, ela parece uma jovem sem graça e comum. No entanto, Ophélie está bem longe dessa descrição: além de teimosa e muito sincera, ela tem dons especiais que permitem que leia o passado dos objetos que toca e atravesse espelhos, ou seja, ela é uma leitora e passa-espelhos.
“– Nada disso! Ler um objeto exige esquecer-se um pouco de si para dar espaço ao passado dos outros. Passar por espelhos exige enfrentar a si mesmo. É preciso ter estômago, sabe, parasse olhar bem nos olhos, se ver como é, mergulhar no próprio reflexo. Aqueles que escondem o rosto, que mentem para si, que se veem melhores do que são, nunca conseguiriam. Então, acredite, não é a coisa mais comum por aí!”

No entanto, toda a tranquilidade dela acaba quando Ophélie é prometida em casamento a Thorn, herdeiro de um dos clãs do Polo, uma arca distante. A partir de então, ela precisa deixar a vida que conhecia para traz, incluindo o trabalho que amava, para viver em um lugar onde tudo é diferente, desde o clima até as pessoas. E Ophélie logo descobre que, diferente de Anima, as pessoas no Polo não são confiáveis e ela precisa ter cuidado pois se tornou uma peça importante em um jogo político cujas regras não conhece. 


São tantos aspectos que quero destacar sobre esse livro que acho até difícil saber por onde começar. Foi uma leitura que superou minhas expectativas por vários motivos, mas acredito que o maior deles seja a sua originalidade. A autora criou uma história diferente de tudo que já li e isso me surpreendeu muito. Mesmo que a trama tenha alguns elementos que sejam relativamente comuns, ela usou isso com personalidade e deu um ar diferente para a história.
Em grande parte, a originalidade de Os noivos do inverno reside no universo apresentado. Nele, o mundo foi dividido não em países, mas em arcas. Cada uma delas tem suas próprias leis, costumes, poderes e o seu próprio líder, o espírito familiar de cada arca. É uma organização de mundo muito diferente de tudo que já li e que se torna mais interessante à medida que a história avança.
Ambas as arcas apresentadas possuem suas peculiaridades e foram bem construídas pela autora. De um lado, Anima é uma sociedade bem estruturada e pacífica, mas com costumes que parecem saídos do século XIX, especialmente no que se refere ao papel das mulheres. De outro, o Polo se mostra uma sociedade muito mais brutal, com uma divisão muito conflituosa e permeada por conspirações políticas. E foram esses aspectos que tornaram o universo do livro tão rico e fascinante.
“A ideia de ser privada da liberdade de se deslocar a horrorizava. Primeiro a enjaulavam por proteção, mas um dia a jaula viraria uma prisão. A transformariam em uma mulher confinada em casa com a única missão de dar filhos ao marido se não tomasse seu destino pelas rédeas de imediato.”

Outro aspecto fundamental para que eu gostasse tanto da leitura foi a excelente construção dos personagens. Ophélie é uma personagem única e que me cativou desde o início. Ela tinha tudo para ser limitada pelo estereótipo da mocinha desastrada e com baixa autoestima, mas surpreende pela força que demonstra e pelo amadurecimento que vai tendo ao longo do livro. Ela não é perfeita e comete alguns erros ao longo do livro, especialmente pela teimosia e uma certa ingenuidade, mas é tão carismática que é impossível não torcer por sua felicidade. 


Com relação aos demais personagens, todos eles cumprem seu papel na trama e tiveram um bom desenvolvimento. É um livro introdutório, mas a autora conseguiu apresentar o suficiente de cada um deles para que o leitor possa começar a entendê-los. Em especial, três tiveram um papel relevante e chamaram minha atenção. Roseline, a tia de Ophélie, é um pouco fútil e preocupada demais com as convenções, mas ama profundamente a sobrinha e isso me cativou. Há também a tia de Thorn, Berenilde, que me deixou com sentimentos conflituosos (tendendo mais para a raiva), mas que é uma personagem complexa e cheia de nuances. Porém, o grande destaque é mesmo o próprio Thorn: frio e muito rude no início, eu tinha certeza que ele era mais do que aparentava e não me enganei. Ele é um personagem com muitas camadas e que acredito que irá se desenvolver ainda mais nos próximos livros.
“Devia falar um pouco do noivo e da relação dos dois? Não fazia ideia de quem ele era realmente. Um grosseirão? Um funcionário importante? Um assassino vil? Um homem de honra? Um bastardo desonrado desde o berço? Eram muitas facetas para um homem só e ela não sabia com qual delas, finalmente, acabaria casada.”
Para minha surpresa, o livro não seguiu um caminho óbvio de um romance clichê. Apesar de ter torcer muito para que Ophélie e Thorn fiquei juntos, acho que os dois ainda têm muito a caminhar para chegar nesse ponto. Ela tem uma grande dificuldade de lidar com sentimentos e se apaixonar ainda é algo distante dos planos dela. Além disso, Thorn ainda é um personagem muito fechado e, assim como Ophélie, precisa aprender a lidar com seus sentimentos. Assim, o romance em nenhum momento se tornou algo concreto dentro da história e não tirou o foco da trama.
Outro grande mérito da trama, é a escrita da autora. Me impressionou muito a habilidade que Christelle Dabos tem para descrever as cenas, os personagens e os ambientes com riqueza de detalhes. São descrições tão bem feitas que fazem o leitor ter a sensação de estar enxergando a história, o que torna a leitura ainda mais fascinante.
“Suspensa no meio da noite, suas torres afogadas na Via Láctea, uma formidável cidadela flutuava sobre a floresta sem    que qualquer coisa a prendesse ao resto do mundo. Era um espetáculo completamente louco, uma enorme colmeia expulsa pela terra, um entrelaçado tortuoso de masmorras, pontes, nichos, escadas, arcobotantes e chaminés.”



A trama não é muito dinâmica, mas, nos momentos em que ela perde um pouco o ritmo, a boa construção do universo e dos personagens manteve meu interesse na leitura. Em nenhum momento senti que o livro se torna cansativo ou enfadonho, porque estava adorando entender aquele universo e tentar descobrir o que tinha por trás das conspirações políticas. Além disso, é uma trama que foi bem amarrada pela autora e apresentou o suficiente para deixar o leitor curioso pelas continuações.
Preciso mencionar também o capricho da editora Morro Branco nessa edição. Além dessa capa linda, que foi a primeira coisa que chamou minha atenção para esse livro, a parte interna conta com ilustrações muito bonitas no início que são importantes para a trama. Além disso, as páginas são amareladas e eu achei que a fonte tinha um bom tamanho para leitura.
Deste modo, Os Noivos do Inverno foi uma surpresa maravilhosa e ideal para começar o ano bem. É uma leitura leve, mas com um universo complexo e bem construído, que me conquistou completamente. Fui arrebatada pela originalidade desta história e, por isso, não vejo a hora de ler os próximos livros desta série. Para quem está procurando uma fantasia que sai do padrão que estamos acostumados a ver por aí, sem dúvida, é uma ótima opção.

Apaixonada por literatura desde pequena, nunca consegui ficar muito tempo sem um livro na mão. Assim, o Dicas de Malu é o espaço onde compartilho um pouco desse meu amor pelo mundo literário.




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