Sete livros YA para refletir



Essa semana, uma marca fez uma ação de marketing um tanto polêmica (para não dizer questionável) que acabou reacendendo o debate sobre os rótulos dos tipos de livros e de leitores. Infelizmente, ainda há quem menospreze os livros contemporâneos, especialmente os Young Adults, e os classifique como rasos e inferiores, não exigindo que o leitor reflita ou se concentre no que está lendo. Pior ainda, tem quem acredite que aqueles que lêem apenas clássicos e livros de autores renomados são leitores superiores aos demais
Em um país em que a maioria da população não lê nada, colocar esse tipo de estereótipos e divisões entre os leitores não contribui em nada para o incentivo à leitura. Além disso, reforça dois tabus perigosos: o de que livros clássicos são cansativos e só quem tem um nível de conhecimento mais avançado conseguirá ler, desestimulando muitas pessoas a conhecerem esses livros; e o de que livros contemporâneos são fracos e não merecem a atenção do leitor, o que, além de um preconceito infundado, ainda leva muitos a menosprezarem obras que nem mesmo conhecem.
Então, pensando em toda essa polêmica, resolvi fazer uma lista com alguns livros YA que trazem temas fortes e importantes, que precisam ser discutidos. São todos livros que, mesmo sendo leituras envolventes e cativantes, abordam assuntos sérios e relevantes para os dias atuais, fazendo o leitor pensar sobre as questões levantadas.

O ódio que você semeia, da Angie Thomas
Inspirada pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução literal), a autora Angie Thomas escreveu um romance jovem adulto forte, real e emocionante sobre o racismo e a violência policial nos Estados Unidos. Já saiu resenha sobre ele aqui no blog, na qual eu falei mais sobre o quanto essa leitura foi impactante, mas é um livro que realmente tira o leitor da zona de conforto e o leva a parar para pensar em uma realidade que é tão triste e injusta e que não acontece só nos EUA.

O sol também é uma estrela, da Nicola Yoon.
Uma das melhores leituras que fiz ano passado (resenha aqui), esse livro traz vários temas que são muito importantes e atuais. Protagonizado por uma menina jamaicana cuja família imigrou ilegalmente para os EUA quando ela ainda era uma criança e um menino americano filho de sul-coreanos, esse livro fala sobre identidade cultural, xenofobia, política de imigração e racismo. Acho que não preciso nem dizer o quanto esses assuntos são relevantes, ainda mais depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.  Além disso, Nicola Yoon ainda traz uma abordagem sensível sobre como as pessoas estão sempre interligadas e podem afetar as vidas umas das outras de maneira profunda, mesmo daquelas que nem conhecem. É um livro muito delicado e apaixonante, mas que certamente faz o leitor refletir sobre assuntos atuais e muito importantes.

Tartarugas até lá embaixo, do John Green.
Sei que tem muitas pessoas que não gostam do John Green e eu até consigo entender algumas críticas feitas a ele, porém, ele fez um trabalho incrível no seu mais recente trabalho, Tartarugas até lá embaixo. Como já mencionei na resenha sobre ele (aqui), esse livro é muito mais do que sua sinopse deixa transparecer e fala de uma maneira muito real e tocante sobre o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Trata-se de um tema bastante relevante, ainda mais que esse distúrbio tem sido banalizado e menosprezado por muitos que acham que só porque não gostam de ver um quadro torto na parede e já falam que têm TOC. Na verdade, esse transtorno é muito, mas muito mais complexo do que isso, e John Green foi extremamente habilidoso em falar sobre o tema e fazer o leitor entender o que realmente é o tema. Foi uma leitura que realmente me tirou da minha zona de conforto e me abriu os olhos para muitas coisas.

A rebelde do deserto, da Alwyn Hamilton
Terminei recentemente esta trilogia e posso dizer que foi uma das melhores que já li. Para começar, a autora apresenta um cenário que não é muito comum vermos retratado nos livros, o deserto, ela traz para a trama vários elementos da mitologia árabe, que é pouco conhecida da maioria das pessoas. Além disso, mesmo se tratando de uma obra de fantasia, ao longo dos três livros, são debatidos temas muito importantes e pertinentes na nossa sociedade, como o machismo e a opressão enfrentada pelas mulheres, e referências à Primavera Árabe e à influência de países imperialistas nos conflitos em países do Oriente Médio. Para quem se interessou, tem resenha dos dois primeiros livros aqui e aqui.

Em algum lugar nas estrelas, da Clare Vanderpool
Quem lê a sinopse desse livro, acha que é uma trama bobinha, quase o roteiro de um filme da Sessão da Tarde. No entanto, como disse na resenha aqui, é um livro cheio de metáforas e reflexões sobre a vida, sobre o crescimento e sobre os sentimentos. Não se trata de uma leitura rasa e muito menos fácil, pois é preciso sair da sua postura de adulto e ter a sensibilidade para enxergar com a história com a inocência das crianças. Protagonizado por dois meninos de 13 anos, que são personagens surpreendentemente complexos, esse livro tem uma história encantadora e cheias de lições, basta o leitor parar para pensar nas reflexões que ficam nas entrelinhas.

A ilha dos dissidentes, da Barbara Morais
Além dos livros jovem adulto, os nacionais sempre enfrentam muitos preconceitos. Então, imagine o quanto os livros jovem adulto nacionais são menosprezados por aí. No entanto, existem vários autores brasileiros muito talentosos e com livros que merecem ser lidos. Um dos meus favoritos é A Ilha dos Dissidentes, da Barbara Morais (resenha aqui). Trata-se de uma distopia com um universo muito original e bem construído, que permitiu à autora explorar temas como a desigualdade, a segregação e o preconceito com as diferenças. É um livro extremamente representativo e que traz várias críticas à nossa sociedade e que fazem o leitor refletir e sair da sua zona de conforto.

Harry Potter, da J. K. Rowling
É óbvio que um livro que inspirou milhares de jovens e adultos a lerem não poderia ficar de fora dessa lista. O simples fato de Harry Potter permanecer formando, até hoje, novas gerações de leitores desde que foi lançado, há mais de 20 anos, já é um forte indicativo de sua importância sobre a literatura. O universo criado por J. K. Rowling é rico, complexo e bem construído, capaz de encantar adultos e crianças. Além disso, é uma obra que fala sobre amizade, preconceito, amadurecimento, dicotomia entre o bem e o mal, e, até mesmo, sobre política e os perigos de um regime extremista e totalitário.

Bônus: É assim que acaba, da Colleen Hoover
Esse livro é um new adult, mas resolvi incluí-la na lista pela relevância dos temas que ele aborda. Dos livros da Colleen Hoover, esse foi o mais profundo e tocante que já li. Ela toca fundo em um assunto muito doloroso, mas que precisa ser discutido. É uma leitura que, mais do que levar o leitor a refletir, desperta a empatia e a sororidade. Acredito que seja impossível ler essa obra e não se colocar no lugar de algumas de suas personagens ou das milhares de mulheres que passam pelas mesmas situações todos os dias. A resenha sobre ele sairá em breve aqui no blog, mas trata-se de um livro intenso, forte, doloroso de ler e extremamente necessário.

Esses foram só alguns exemplos de livros contemporâneos que eu já li e que trazem temas importantes e fazem o leitor sair de sua zona de conforto e parar para refletir. Acredito que precisamos acabar com esses rótulos e preconceitos entre os leitores e entender que o fato de não gostarmos de um livro não significa que ele seja fraco, mal escrito ou irrelevante.
Aproveito também para lembrar que muitos livros considerados clássicos hoje, já foram menosprezados anos atrás. Um exemplo disso é a autora inglesa Jane Austen, que é considerada uma das maiores escritoras da literatura por ter feito um retrato brilhante da sociedade em que viveu, repleto de críticas aos padrões e preconceitos da época, mas cujos livros já foram considerados “de mulherzinha”; obras inferiores que serviam apenas para entreter o público. Então, quem garante que alguns livros contemporâneos que não são valorizados hoje, não se tornarão clássicos futuramente?
Agora, quero saber de vocês o que acharam dos livros Young Adult que eu indiquei, se recomendam outros e o que pensam dessa polêmica envolvendo esses rótulos em relação aos livros contemporâneos. Me contem aí nos comentários, pois vou adorar saber a opinião de vocês. Só peço que não desrespeitem os gostos e opiniões de outros, tá?

[Resenha] Uma sombra ardente e brilhante

Autora: Jessica Cluess
Editora: Galera Record
Páginas: 336
Skoob
Onde comprar: Amazon
Exemplar recebido em parceria com a editora
Sinopse: “O primeiro livro da série de Jéssica Cluess, perfeito para surpreender fãs de fantasias já bem habituados com magia, profecias e triângulos amorosos. Henrietta Howel tem o poder de explodir em chamas. Quando é obrigada a expor suas habilidades ela tem certeza de que será executada. Apenas os feiticeiros podem usar magia, e nenhum deles é mulher. Ela se surpreende quando não só é poupada da guilhotina, mas também nomeada a primeira feiticeira em séculos. Ela é a garota profetizada, aquela que derrotará os Ancestrais – seres sanguinários que aterrorizam a humanidade. Henrietta então passa a treinar dia e noite com um grupo de feiticeiros ansiosos para testar as habilidades – e o coração – da garota da profecia. Mas será que Henrietta é mesmo a garota da profecia?”

“Eu sou Henrietta Howel. A primeira feiticeira em séculos. A garota que consegue controlar o fogo. Aquela que derrotará os Ancestrais. A escolhida. Sou mesmo?”
A série “livros de fantasia que me conquistaram pela capa” ganhou um novo capítulo: Uma sombra ardente e brilhante, da Jessica Cluess, que foi lançado no final do ano passado pela Galera Record. Quando eu olhei essa capa, não precisei nem ler a sinopse para saber que se tratava de um livro de fantasia e que eu já queria ler. Felizmente, meu palpite se mostrou correto e gostei bastante da leitura.
Primeiro volume de uma trilogia, Uma sobra ardente e brilhante tem como protagonista Henrietta Howell, uma jovem professora em uma escola para garotas que não tem grandes perspectivas de algum dia conseguir ir embora dali, mas que esconde um grande segredo. Ela tem uma misteriosa habilidade mágica associada ao fogo e é conjurar chamas do nada. Porém, em uma Inglaterra vitoriana machista, mulheres não eram autorizadas a usar magia e esse talento da garota poderia acabar significando uma passagem só de ida para a cadeia.
No entanto, quando, em uma situação de desespero, Henrietta usa seu poder na frente de um poderoso feiticeiro e acaba descobrindo que vinha sendo procurada há muito tempo. Existia uma profecia que dizia que uma feiticeira iria surgir e derrotar os Sete Ancestrais – demônios que haviam sido libertados anos antes por um casal de magos e atavam a Inglaterra, levando caos e destruição. Quando mestre Aggripa descobre o poder Henrietta, fica claro que ela era a garota da profecia e que deveria ser levada para Londres a fim de ser treinada juntamente com outros Iniciantes que, em breve, receberiam a comenda da Rainha e se tornariam feiticeiros.
O problema é que não seria tão fácil para Henrietta conquistar a aceitação dos demais feiticeiros. Muitos não viam com bons olhos uma garota feiticeira e até mesmo duvidavam que a profecia estivesse correta. Além disso, durante seu treinamento, Henrietta percebe que ela poderia realmente não ser mesmo a garota que todos esperavam, o que a colocaria em uma posição extremamente perigosa.


Uma das coisas que mais gostei nesse livro foi como a autora usa a proibição das mulheres de usar magia para mostrar o machismo da era vitoriana e que, infelizmente, persiste até hoje (mesmo que em menor grau). Além disso, é quando Henrietta, uma garota negra, chega em uma Londres totalmente dominada por homens brancos, que o preconceito daquela sociedade fica mais evidente. Os outros feiticeiros custam a aceita-la como um deles e, além de estar bem atrasada em termos de treinamento, Henrietta precisa se esforçar muito mais para provar seu valor.
“Às vezes, parece que moças são treinadas desde o nascimento para jamais contribuírem com nada de original numa conversa.”
No entanto, ela é uma protagonista que se mostra à altura dos desafios. Apesar das dificuldades em se adaptar a uma realidade que era totalmente nova para ela em um ambiente que, muitas vezes, se apresenta hostil, Henrietta demonstra uma personalidade forte e uma determinação impressionante. Lógico que, sendo uma garota de apenas dezesseis anos, órfã e sem nunca ter conhecido o carinho da família, ela tem seus momentos de fraqueza e vulnerabilidade. No entanto, isso acaba fazendo com que ela seja mais humana e real para o leitor.
Outro ponto que gostei bastante nesta personagem é o quanto ela se mostra leal. Seu melhor amigo, Rook, é considerado um Impuro, por ter sido atacado por um dos ancestrais. No entanto, em momento algum ela considera abandoná-lo. O laço entre eles é bonito, apesar de ficar balançando entre o amor e a amizade; e, mesmo com as dúvidas em relação aos seus sentimentos e as mudanças que ocorrem na vida dos dois quando vão para Londres, eles se esforçam para continuarem se apoiando e se protegendo.
“Os feiticeiros eram diferentes de todos os outros, irremediavelmente diferentes. (...) Meu caminho atual estava me levando para longe de pessoas como Lilly, Charley e Rook, os tipos com quem eu havia crescido. O tipo de pessoa que eu havia sido.”
Além de Rook, há outros personagens que vão ganhando destaque na trama e que acabaram se tornando importantes na vida de Henrietta. Começando com Julian Magnus, o primeiro aprendiz a reconhecê-la como uma igual e aceita-la no grupo treinado pelo mestre Aggripa. Por outro lado, George Blackwood, o jovem Conde de Sorrow-Fell, não parece acreditar nem um pouco que ela seja a garota da profecia e se mostra sempre disposto a criticá-la. Mas, acreditem ou não, ele acabou se mostrando um dos personagens mais complexos do livro e se tornou o meu favorito. Há ainda um misterioso mago, Hargrove, que se mostra fundamental na jornada de Henrietta e que, com um jeito prático e um humor bastante ácido, me lembrou o Haymitch da trilogia Jogos Vorazes (inclusive, já quero um filme com o Woody Harrelson interpretando esse personagem).
É claro que em um livro que com tantos adolescentes não poderia faltar romance, né? No entanto, felizmente, ele aparece de maneira sutil e não tira o foco da trama principal. Com exceção de um único personagem, cujos sentimentos ficam mais claros a partir de um determinado ponto, todos os outros ficam mais nas entrelinhas e é realmente difícil apontar qual casal ficará junto. No entanto, confesso que apenas uma das possibilidades me empolgou e torço muito para que ela se concretize nos próximos livros.


Com relação ao universo, Jessica Cluess foi muito habilidosa em inserir o leitor nesse mundo mágico. Não tive dificuldade nenhuma para me adaptar àquele ambiente ou entender como ele funcionava. Além disso, achei muito interessante o fato da autora ter misturado elementos fantásticos com um período histórico real. No livro, vemos a rainha Victória presente na história, assim como muitos aspectos da sociedade inglesa da Era Vitoriana, mas também magos, feiticeiros e bruxos, além de criaturas terríveis que ameaçavam a segurança da Inglaterra. É possível perceber também como até entre aqueles com habilidades mágicas estavam refletidos os preconceitos e os padrões rígidos de comportamento daquela época.
“– Não podemos confiar neles, Nettie. – Ele estava resoluto. – Não deveríamos ter que fingir para sermos aceitos.”
A minha única ressalva é que achei o ritmo morno na maior parte do livro. Como vemos Henrietta em uma fase de adaptação à sua nova vida, não há tanta ação no começo. Além disso, acredito que os Ancestrais acabaram ficando como uma ameaça um tanto abstrata. Eu tive dificuldade em enxergá-los como algo realmente temível e, por isso, achei que faltou um certo senso de urgência para deixar a leitura mais envolvente.
No entanto, da metade para o fim, esse aspecto melhora consideravelmente e a trama ganha um ritmo mais intenso. O desfecho conta com algumas reviravoltas que deixaram a trama mais interessante e terminei a leitura com a expectativa de que, neste volume, encontrei apenas a apresentação de uma trama que se tornará muito maior nos próximos volumes. Apesar de não ser um final totalmente aberto, a autora deixou pontas a serem exploradas e foi habilidosa para escrever isso de um jeito que realmente motive o leitor a ler as continuações.
Com relação à edição, como eu já disse no início da resenha, adorei esta capa desde que a vi. Depois de concluir a leitura, gostei ainda mais, pois combina perfeitamente com o livro. As páginas amareladas e o tamanho da fonte também estão ótimos para leitura e achei que a revisão estava muito boa. Só senti falta de um mapa que permitisse ao leitor visualizar melhor como estavam espalhados os ataques dos Ancestrais no território inglês, mas não foi algo que tenha dificultado a compreensão da história.
Em resumo, Uma sombra ardente e brilhante pode ter sido uma leitura que começou a me conquistar pela capa, mas certamente o conteúdo não me decepcionou. Adorei o universo criado pela Jessica Cluess, bem como os personagens e a forma como a trama foi desenvolvida. Mesmo faltando um pouco de ação no começo, a leitura não foi cansativa em momento algum graças a escrita fluida e envolvente da autora. É um livro que deve agradar aqueles que amam fantasia e romances históricos, inaugurando muito bem a trilogia. Ele certamente despertou o interesse pelas continuações e já estou ansiosa para que o segundo seja publicado no Brasil. 

Apaixonada por literatura desde pequena, nunca consegui ficar muito tempo sem um livro na mão. Assim, o Dicas de Malu é o espaço onde compartilho um pouco desse meu amor pelo mundo literário.




Facebook

Busca

Instagram

Twitter

Editoras Parceiras

Seguidores

Arquivos

Newsletter

Populares

Tecnologia do Blogger.